Interceptação em Redes IP

Interceptação de e-mails e acessos na Internet

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Uma outra linha de investigação bastante recente está voltada para métodos de interceptação de voz e dados em redes IP. O aumento crescente da popularidade da internet e, consequentemente, os diversos tipos de informação que podem trafegar nesse tipo de rede, exigem uma rápida adequação e flexibilidade dos sistemas de monitoração e equipamentos de coleta de dados para procederem a interceptação de tais informações.

Neste tipo de rede o conteúdo da chamada interceptada passa a ser multimídia, ou seja, além da voz, os dados de interesse de interceptação são também mensagens de correio eletrônico, web browsers, chats, áudio, vídeo e outros serviços baseados na internet.

Diferentemente da rede de comutação de circuitos, que estabelece um circuito virtual entre a fonte e o destino, a interceptação em uma rede de pacotes se torna mais complexa devido principalmente às características de conexão desse tipo de rede.

A principal dificuldade da interceptação em redes IP está no fato desse protocolo não ser orientado à conexão, fazendo com que a informação, dividida em vários pacotes, possa ser roteada por diversos caminhos. Além disso, na internet, uma mesma conexão física pode carregar tráfegos de fontes diversas, de forma que para saber se um determinado pacote faz parte de uma comunicação interceptada, todos eles devem ser examinados.

Uma outra dificuldade está na identificação do dado interceptado. Enquanto que a interceptação nas redes de comutação de circuitos é baseada no número do assinante, não existe uma identificação análoga na rede de pacotes. O que mais se aproxima é o endereço IP. Entretanto, os endereços IP são, normalmente, alocados dinamicamente ao se fazer o login na rede, o que torna a identificação de uma interceptação pelo endereço IP praticamente impossível.

Na telefonia IP, uma importante característica é a mobilidade do usuário. Cada usuário é identificado por um ou mais endereços fictícios, os chamados “alias address”, que são usualmente identificados em forma de números telefônicos ou nomes textuais. O provedor de serviços IP habilita o usuário a utilizar esse endereço em vários locais associados a endereços IP distintos. Dessa forma, o sistema de interceptação deve ser capaz de identificar um usuário alvo pelo endereço fictício, independente de sua localização e endereço IP.

Segundo Branch [BRANCH, 2003], embora ainda não regulamentado, a maioria das soluções para interceptação de tráfego em redes IP está baseada na utilização de “snifers”. Estes equipamentos são inseridos em determinados pontos de interesse na rede através de cabos ópticos ou conectados diretamente aos hubs ou switches e examinam todo o tráfego que passa por aquele ponto. Eles podem ser programados para capturar somente o tráfego de interesse, isto é, tráfego originado de ou enviado para algum destino particular.

Porém, como esses sistemas foram originalmente desenvolvidos para diagnosticar falhas na rede, apresentam certas deficiências quando utilizado para aplicação de interceptação além de serem complexos e caros. Um dos maiores problemas recai sobre os requisitos de segurança no que diz respeito à quebra do sigilo das informações de terceiros, uma vez que o tráfego de qualquer pessoa pode ser capturado. Caso uma interceptação ilegal ocorra devido a operações maliciosas, falha no sistema ou simplesmente por incompetência, torna-se muito difícil fazer qualquer tipo de auditoria.

Um outro mecanismo apontado por Branch refere-se ao sistema de interceptação realizado na aplicação. O conteúdo da informação é interceptado antes ou depois que os pacotes IP trafegam pela rede. Usando o serviço de e-mail como exemplo, ao invés do mandado judicial da interceptação ser destinado ao provedor de serviços de internet, a agência de monitoração requisitaria diretamente as informações ao operador de e-mail, em consulta direta ao seu banco de dados.

Esse mecanismo é particularmente atrativo em aplicações como voz sobre IP, jogos em rede, e fluxos de vídeo onde gateways de serviços são utilizados. No entanto, essa abordagem pode ser facilmente contestada, caso o provedor de serviços esteja localizado fora da área de jurisdição da agência de monitoração.

Milanovic et al. [MILANOVIC et al., 2003], apresenta um estudo sobre métodos de Interceptação em rede de telefonia IP baseados no protocolo de sinalização H.323 [ITU-T, 2000]. É apresentada uma análise de quatro possíveis métodos de interceptação em diferentes pontos da rede e uma discussão sobre as vantagens e desvantagens de cada um.

O primeiro método propõe a realização da interceptação das chamada IP a partir do gateway, equipamento responsável pela mediação entre a rede de telefonia IP baseada no protocolos H.323/SIP e a rede PSTN, conforme ilustrado na Figura 9. O gateway, que tem acesso a toda sinalização e conteúdo das chamadas que trafegam entre essas duas redes, é adaptado para examinar a sinalização de cada chamada e determinar qual é designada para interceptação.

Esse método não introduz nenhum atraso adicional e nem aumenta a latência no transporte do fluxo de voz. Entretanto, a sua principal desvantagem é que ele não prove uma solução universal, já que as chamadas realizadas localmente dentro da rede H.323/SIP e que, portanto, não passam pelo gateway, não são interceptadas.
 


A Figura 9 - Interceptação de Redes IP - Gateway

 

O segundo método propõe a realização da interceptação em cada equipamento gatekeeper, equipamento responsável pelo roteamento dos pacotes dentro da rede H.323/SIP. Durante o procedimento de conexão, ao detectar que a chamada deva ser interceptada, o gatekeeper desvia todo o fluxo dessa chamada para um equipamento de monitoração a ele co-alocado, de modo que esse equipamento passe a mediar todas as mensagens de sinalização e pacotes de voz entre os participantes da chamada interceptada.

A principal vantagem desse método é a não necessidade de modificação de nenhum componente da rede H.323/SIP e a relativa simplicidade de implementação do protocolo de sinalização no equipamento de monitoração. A desvantagem está numa possível degradação na qualidade de serviço, uma vez que os pacotes de voz são roteados pelo equipamento de monitoração, causando perdas, jitter e aumento da latência. A Figura 10 ilustra esse método de interceptação.

 

Figura 10: Interceptação de Redes IP - Gatekeeper
 


O terceiro método é uma derivação do segundo. Ao invés do gatekeeper rotear apenas o fluxo da chamada interceptada para o equipamento de monitoração, todas as chamas são roteadas. O equipamento de monitoração é, então, responsável por identificar a chamada e proceder a interceptação. Apesar desse método não exigir nenhuma inteligência do gatekeeper, ele continua apresentando a degradação na qualidade de serviço alem de impor uma grande carga no equipamento de monitoração, já que todas as chamadas são desviadas para ele.

O quarto método propõe a implementarão de um dispositivo de interceptação que opere em um modo promíscuo, monitorando todo o tráfego que passa pela rede. Esse dispositivo é conectado ao switch da rede local ( Figura 11), o qual é programado para desviar o tráfego de todas as portas para a porta de monitoração na qual o dispositivo está conectado.

Esse método não causa degradação na qualidade de serviço e não exige nenhuma modificação em qualquer componente da rede. Todavia, depende do desempenho do switch e da capacidade de processamento do dispositivo de monitoração, que pode ser bastante comprometida em redes de alta velocidade.
 

Figura 11: Interceptação de Redes IP - Modo Promíscuo
 

Backer [BAKER et al., 2004], em um recente resumo de artigo publicado na internet, descreve como a Cisco está tratando a questão da interceptação em redes IP. A abordagem é bastante similar àquela utilizada pelo modelo ETSI para interceptação em redes de acesso.

Embora a questão de como as informações interceptadas devam ser coletadas ainda esteja em aberto, as interfaces e os componentes funcionais são definidos. Talvez este seja um importante passo para a padronização de uma arquitetura de interceptação para a rede de pacotes.

Embora a forma de se realizar tecnicamente a interceptação de chamada nas redes de acesso PSTN e nas redes IP apresente algumas particularidades específicas a elas inerentes, existem muitos pontos em comum no que diz respeito aos tipos de dados interceptados (voz e dados), aos procedimentos legais necessários para a realização da interceptação, às interfaces entre os sistemas de gerência e coleta de dados, a localização e a necessidade da correta identificação dos alvos da interceptação.

Normatização

As normas de referência para interceptação em redes de pacotes são bastante recentes e algumas estão ainda em processo de revisão.

Os dois principais órgãos de normatização são o americano CALEA (Communications Assistance for Law Enforcement Act) e o europeu ETSI (European Telecommunications Standards Institute) As tabelas a seguir apresentam um série de normas e os respectivos serviços a que se aplicam.
 

Normas CALEA para interceptação em redes de pacotes

Serviço
Documento
Título
CDMA2000 Packet-Mode Data
J-STD-025-B

Lawfully Authorized Electronic Surveillance

CDMA2000 PoC
J-STD-025-B

Lawfully Authorized Electronic Surveillance

GSM/GPRS/UMTS Packet-Mode data T1.724
T1.724

UMTS Handover Interface for Lawful Interception

Wireline VoIP
T1.678

Lawfully Authorized Electronic Surveillance(LAES) for Voice over Packet Technologies in Wireline Telecommunications Networks

Broadband Cable VoIP
PKT-SP-ESP-I04

PacketCable™ Electronic Surveillance Specification

Internet Access
T1.IPNA

Lawfully Authorized Electronic Surveillance (LAES) for IP Network Access

 

Normas ETSI para interceptação em redes de pacotes

Serviço
Documento
Título
PSTN
TS 101 671
Handover interface for the lawful interception of telecommunications traffic
IP
TS 102 232
Handover specification for IP delivery
E-Mail
TS 102 233
Service specific details for E-Mail delivery
Internet Access
TS 102 234
Service specific details for Internet Access Services
GSM/GPRS/UMTS
TS 133 106
UMTS, Lawful interception Requirements
GSM/GPRS/UMTS
TS 133 107
UMTS, Lawful interception Architecture and Functions
GSM/GPRS/UMTS
TS 133 108
UMTS, Handover interface for Lawful Interception (LI)